Avá-Canoeiro: a luta por protagonismo e preservação em Serra da Mesa
OPIG visita a comunidade em busca de cooperação em direitos humanos e preservação cultural
Texto e Fotos: Epitácio Santos
Minaçu, GO – Um dos povos mais massacrados do Brasil, os Avá-Canoeiro hoje se resumem a poucas famílias na Terra Indígena em Minaçu. De 14 a 16 de maio de 2026, uma equipe do Observatório dos Povos Indígenas de Goiás (OPIG/UFG) visitou a comunidade para apresentar o observatório e firmar cooperação em direitos humanos e preservação cultural.
A cacica Niwathima recebeu a equipe na Aldeia Jatobá e apontou urgências: "Preocupa a gente a preservação da nossa língua Avá", disse. Única professora do idioma na escola local, ela evita ensinar a língua aos não-Avá. Com apenas quatro crianças Avá-Canoeiro na aldeia, o esforço de transmissão é diário.
"A língua é fator central na identidade de um povo", reforça o antropólogo Lucas Veloso, do OPIG. "O zelo de Niwathima é pela sobrevivência cultural".
Saúde e vulnerabilidade
A aldeia mantém estrutura de home care para Trumak, ex-cacique de 39 anos acamado por linfoma. "Os Avá usam royalties da compensação ambiental para bancar quarto adaptado, equipamentos e equipe multiprofissional", relatou Raphael Moura, professor da Universidade Federal de Jatai pesquisador para questões em Saúde Mental do OPIG. "Não é só tratamento. É cuidado, carinho, zelo.
"Patrícia de Carvalho Souza, chefe da Unidade Técnica Local da Funai em Minaçu, detalha os desafios. A Funai cuida de um território de 39 mil hectares com três barreiras de vigilância. Mesmo assim, garimpo, caça ilegal e retirada de madeira persistem. "O território é preservado, com mata fechada e animais. Isso atrai caçadores de fora", explica. O maior desafio, segundo ela, é fiscalizar protegendo uma população reduzida: "Os Avá-Canoeiro são uma família de oito pessoas. Precisamos preservar a família e o território que habitam".
Na aldeia, a Sesai, (Secretaria de Saúde Indígena), mantém polo 24h com médico, enfermeiro, técnico e motorista. As idosas Matxa, 87, com deficiência visual há 32 anos, e Twia, 55, que carrega traumas da fuga constante na infância, recebem acompanhamento. "Tuia nunca teve contato com outras crianças ou grávidas. Foi tudo novo pra ela", diz Patrícia.
Educação e compensação
A escola estadual dentro da aldeia é trilíngue: Avá-Canoeiro, Tapirapé e português. Recursos de compensação ambiental da Hidrelétrica Serra da Mesa, administrada pela Axia Energia, (maior empresa de energia elétrica da América Latina e a maior geradora de energia renovável do Hemisfério Sul) bancam parte da estrutura. O Plano Básico Ambiental ainda está em elaboração.
Parceria OPIG-Funai
Para o professor Manuel Lima Filho, coordenador do OPIG, a visita foi exitosa: "Fomos com atitude de muita escuta. Com cuidado, por conta da história de violência contra esse povo do Araguaia e Tocantins. A equipe da Funai é preparada, harmoniosa e alinhada eticamente. Trabalhos anteriores com as professoras Rosani Moreira e Mônica Veloso, da UFG, que realizaram em um passado recente a construção da escola para/com os Avá-Canoeiro, no Brasil, por meio de parceria entre a Universidade Federal de Goiás (UFG) e a Seduc (Secretaria de Estado de Educação do Estado de Goiás). abriram caminho".
Haroldo Resende e Edson Luiz, indigenistas da Funai/Goiânia, destacaram que a reunião com Niwathima foi parte da Consulta Livre, Prévia e Informada (CLPI), conforme a Convenção 169 da OIT. "Esclarecemos o papel do OPIG em acolher demandas de proteção social, violência contra mulheres e violações de direitos. Fortalecemos a rede de proteção e valorizamos a memória das mulheres Avá-Canoeiro.
"Niwathima reconheceu as parcerias e formalizou o acordo com o OPIG. "Está posto o canal de escuta com a comunidade, seja nas denúncias ou na acolhida de demandas para que exerçam cidadania plena", afirma Manuel.
Próximos passos
OPIG e Funai vão avaliar estudos arqueológicos numa caverna usada como refúgio pelos Avá, onde ainda há pilão e panela de barro. Também planejam um documentário com as memórias de Niwathima.
Para Patrícia, o observatório traz visibilidade: "Por muitos anos ficaram apagados. Tirar dessa teia invisível gera consciência, acesso, respeito e empatia. É isso que os povos originários precisam".
Fonte: Observatório dos Povos Indígenas de Goiás
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